Representantes de 91 países participaram de encontro no TSE; cerca de 80 autoridades estrangeiras também deverão acompanhar etapas da votação e da apuração em outubro
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, reuniu em Brasília representantes diplomáticos de 91 países e de três organismos internacionais para apresentar o funcionamento das eleições brasileiras de 2026. A movimentação amplia a presença de autoridades estrangeiras no acompanhamento do processo eleitoral justamente em um ano em que o sistema de votação, a atuação da Justiça Eleitoral e os limites de sua intervenção no ambiente digital deverão continuar no centro do debate político.
O encontro ocorreu nesta segunda-feira (17) e fez parte do Programa de Convidados Internacionais para as Eleições 2026. Participaram representantes de 91 países, além da Organização das Nações Unidas (ONU), União Europeia e Liga dos Estados Árabes. Durante a apresentação, o TSE detalhou procedimentos de votação, mecanismos de segurança, auditorias, cadastro eleitoral, biometria e medidas adotadas para enfrentar desinformação e conteúdos produzidos por inteligência artificial.
Nunes Marques afirmou aos diplomatas que o Brasil pretende manter o processo eleitoral aberto ao acompanhamento internacional. O TSE informou ainda que organismos de países de língua portuguesa, a União Interamericana de Organismos Eleitorais e a Rede Mundial de Justiça Eleitoral foram convidados a participar das eleições como missões de especialistas. Esses representantes poderão acompanhar etapas como auditorias públicas, preparação das urnas eletrônicas, votação, apuração e totalização dos votos.
Estrangeiros acompanharão votação em outubro
A presença internacional não deverá se limitar ao encontro diplomático realizado em Brasília. Nunes Marques anunciou um novo programa entre os dias 2 e 4 de outubro, período que antecede o primeiro turno das eleições.
Segundo o TSE, aproximadamente 80 autoridades, entre magistrados e especialistas estrangeiros, deverão participar das atividades e acompanhar de perto diferentes etapas do processo eleitoral, incluindo visitas a seções eleitorais no dia da votação.
A estratégia coloca o sistema eletrônico brasileiro sob uma vitrine internacional. Para o tribunal, a participação estrangeira funciona como demonstração de transparência. Ao mesmo tempo, o movimento deverá manter em discussão um tema que ganhou forte dimensão política nos últimos anos: o grau de abertura dos procedimentos eleitorais à fiscalização e à verificação por diferentes setores da sociedade.
Nas eleições deste ano, o TSE prevê a utilização de 560.011 urnas eletrônicas em mais de 497 mil seções eleitorais, distribuídas por 2.641 zonas eleitorais e mais de 5,5 mil municípios. Aproximadamente 159 milhões de brasileiros estão aptos a votar, segundo os dados apresentados pela Justiça Eleitoral.
Inteligência artificial entra no radar do TSE
Outro ponto destacado por Nunes Marques foi o avanço da inteligência artificial e a possibilidade de utilização de vídeos, imagens e áudios manipulados durante a campanha eleitoral.
O TSE vem ampliando acordos com empresas de tecnologia para tentar identificar e reduzir esse tipo de conteúdo. Em agosto, o tribunal firmou acordo com a ElevenLabs, empresa especializada em inteligência artificial para geração de voz, com o objetivo de restringir a clonagem não autorizada da voz de candidatos e autoridades eleitorais e auxiliar na identificação de áudios suspeitos produzidos pela plataforma.
A Corte também estabeleceu parcerias com plataformas como Meta, Google, X, Telegram, TikTok, LinkedIn e Kwai, além de empresas ligadas à inteligência artificial. Os acordos preveem cooperação no enfrentamento de conteúdos considerados falsos, manipulados ou descontextualizados durante o período eleitoral.
É justamente nessa área que a atuação da Justiça Eleitoral deverá continuar despertando atenção. Se por um lado o avanço dos deepfakes cria um problema real para qualquer processo eleitoral, por outro, medidas relacionadas à remoção de conteúdo e suspensão de perfis inevitavelmente levantam discussões sobre critérios, alcance das decisões e preservação da liberdade de expressão.
A postura adotada por Nunes Marques à frente do TSE indica que o ministro pretende apostar na exposição internacional dos procedimentos eleitorais e na cooperação com governos, organismos estrangeiros e empresas de tecnologia. A eficácia dessa estratégia, porém, dependerá menos dos discursos feitos diante de diplomatas e mais da capacidade da Justiça Eleitoral de demonstrar, na prática, transparência, previsibilidade e respeito às garantias legais durante todo o processo eleitoral.
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