Líderes municipais da região definem estratégias e intensificam a busca por votos enquanto alinham suas posições para os próximos pleitos.
O período eleitoral começou oficialmente e o xadrez político do Grande ABC já está montado. Os sete prefeitos da região entraram em campo para fortalecer aliados nas disputas por vagas na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados, ao mesmo tempo em que começam a se posicionar na corrida pelo Governo de São Paulo. Em vez de um bloco regional único, o que existe é uma combinação de interesses municipais, alianças partidárias e projetos políticos que já miram também as eleições de 2028.
Em Santo André, o prefeito Gilvan Ferreira (Cidadania) colocou sua estrutura política ao lado do ex-prefeito Paulo Serra (PSDB), candidato a deputado federal, e da deputada estadual Ana Carolina Serra (PSDB), que busca a reeleição. A dobrada abriu oficialmente a campanha no último domingo, dia 16, em um ato na Casa de Portugal que reuniu cerca de 1.200 pessoas. Paulo Serra deixou a Prefeitura no fim de 2024 após dois mandatos e continua sendo o principal padrinho político do atual prefeito, o que transforma a eleição deste ano em um teste da capacidade do grupo de transferir para Brasília e para a Alesp a força construída no Paço andreense.
Em São Bernardo do Campo, o jogo é mais fragmentado. O prefeito Marcelo Lima (Podemos), que assumiu neste ano a presidência estadual da legenda, montou um palanque com vários nomes. Para a Assembleia Legislativa, estão entre seus apoiados os vereadores Fran Silva (Podemos), Ivan Silva (Podemos) e Julinho Fuzari (Republicanos). Para deputado federal, Marcelo mantém acordo tanto com Alex Manente (Cidadania), que tenta renovar seu mandato, como com Rafael Demarchi (Progressistas). A estratégia ocorre justamente na cidade em que o ex-prefeito Orlando Morando (MDB) tenta retornar à vida parlamentar como deputado federal, enquanto sua mulher, Carla Morando (PSD), busca o terceiro mandato na Alesp.
São Bernardo, portanto, concentra uma das disputas mais interessantes do ABC. Marcelo Lima precisa demonstrar força própria depois de suceder Orlando Morando na Prefeitura, enquanto Morando tenta provar que deixou o Paço sem perder sua base eleitoral. Alex Manente adiciona uma terceira força relevante ao cenário. O resultado de outubro não decidirá apenas quem terá mandato em Brasília ou na Assembleia: servirá também como fotografia antecipada da correlação de forças para a eleição municipal de 2028.
Em São Caetano do Sul, o prefeito Tite Campanella (Republicanos) fez uma escolha que ultrapassa as fronteiras da cidade. Seus candidatos declarados são Orlando Morando (MDB) para deputado federal e Carla Morando (PSD) para deputada estadual. Tite chegou a participar, no dia 17, do lançamento da candidatura do vereador Edison Parra, mas fez questão de esclarecer que a presença era uma cortesia e reafirmou que seus candidatos são Carla e Orlando. O movimento distancia o atual prefeito do deputado estadual Thiago Auricchio (PL), integrante do grupo político que comandou São Caetano por vários mandatos e que tenta novamente permanecer na Alesp.
Já em Ribeirão Pires, a composição passa diretamente pela família Volpi. O prefeito Guto Volpi (PL) trabalha pela eleição do pai e ex-prefeito Clóvis Volpi (PSD) para deputado estadual e também apoia Orlando Morando para deputado federal. O argumento público do prefeito é fortalecer a representação regional, mas há também uma dimensão municipal evidente: uma boa votação de Clóvis mantém o grupo Volpi como principal força política da cidade e amplia sua influência dentro do Grande ABC.
Em Diadema, o prefeito Taka Yamauchi (MDB) montou um palanque menos doméstico. Para deputado federal, apoia a reeleição de Baleia Rossi (MDB), presidente nacional do partido. Para a Assembleia Legislativa, os apoios registrados são Alex de Madureira (PL) e Regina Nunes (MDB), mulher do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes. A opção mostra como Taka procura aproximar Diadema tanto da cúpula nacional do MDB quanto de lideranças ligadas ao governo estadual e à Prefeitura da Capital.
No campo oposto está Mauá, onde o prefeito Marcelo Oliveira (PT) mantém um palanque claramente alinhado ao seu partido. Para deputado estadual, apoia Rômulo Fernandes (PT), que tenta a reeleição, e para deputado federal fechou com o ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Moisés Selerges (PT). Marcelo Oliveira é também o prefeito da região que assumiu de maneira mais explícita o apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e à candidatura de Fernando Haddad (PT) ao Governo de São Paulo.
Em Rio Grande da Serra, o prefeito Akira Auriani (PSB) trabalha pelos correligionários Caio França, candidato a deputado estadual, e Tabata Amaral, candidata à Câmara Federal. No plano estadual, Akira está no campo de Fernando Haddad, embora mantenha diálogo institucional próximo com Tarcísio. Essa posição ficou evidente quando o prefeito participou, em 10 de agosto, de uma reunião organizada por Tarcísio com prefeitos da Região Metropolitana. Akira afirmou que compareceu em razão da relação institucional com o Estado e dos recursos destinados ao município, sem que isso representasse uma mudança de campo eleitoral.
A divisão fica ainda mais clara na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes. Gilvan Ferreira, Marcelo Lima, Tite Campanella, Taka Yamauchi e Guto Volpi estão no campo da reeleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Marcelo Oliveira e Akira Auriani permanecem vinculados ao bloco de Fernando Haddad (PT). Em 10 de agosto, Tarcísio reuniu seis dos sete prefeitos do ABC em um almoço político com chefes do Executivo da Região Metropolitana; Marcelo Oliveira, de Mauá, foi o único ausente.
Há um motivo eleitoral concreto para Tarcísio dedicar atenção especial à região. No segundo turno de 2022, Haddad terminou à frente no conjunto das sete cidades: foram 803.658 votos contra 735.676 de Tarcísio, diferença de 67.982 votos. Haddad venceu em São Bernardo, Diadema, Mauá e Rio Grande da Serra, enquanto Tarcísio ficou na frente em Santo André, São Caetano e Ribeirão Pires. Quatro anos depois, o governador chega à eleição com uma situação diferente: cinco das sete prefeituras estão politicamente alinhadas à sua candidatura.
É justamente aí que o verdadeiro xadrez do Grande ABC aparece. A eleição não será apenas uma disputa entre direita e esquerda ou entre Tarcísio e Haddad. Em cada município existe uma batalha própria por território político. Paulo Serra testa sua capacidade de transformar a força construída em Santo André em mandato federal; Marcelo Lima tenta consolidar uma liderança própria em São Bernardo diante de Orlando Morando e Alex Manente; Tite Campanella rompe a lógica de simplesmente reproduzir o antigo grupo governista de São Caetano; Guto Volpi tenta ampliar a presença política da família; Taka aproxima Diadema da estrutura estadual do MDB; e Marcelo Oliveira trabalha para manter Mauá como principal reduto petista entre as grandes prefeituras da Região Metropolitana.
Esse é o ponto que merece ser acompanhado até outubro: quem conseguir transformar o poder das prefeituras em votos para seus candidatos sairá da eleição maior do que entrou. Quem fracassar poderá chegar enfraquecido à sucessão municipal de 2028. No Grande ABC, portanto, a votação para deputado pode dizer muito mais sobre o futuro político das sete cidades do que aparentemente sugere uma eleição proporcional.
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