O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta sexta-feira (21) que a pressão sobre a inflação brasileira está relacionada principalmente aos efeitos da guerra entre Estados Unidos e Irã e contestou a avaliação de que os gastos do governo sejam os responsáveis pelo aumento dos preços e pela manutenção dos juros em patamar elevado.
Durante entrevista à rádio Metrópole, da Bahia, Durigan argumentou que a preocupação do Banco Central com a inflação não está restrita à situação fiscal brasileira. Segundo ele, bancos centrais de diversos países também estão reagindo às consequências econômicas do conflito no Oriente Médio, especialmente aos efeitos sobre petróleo, preços e oferta de produtos.
Ao defender sua interpretação para o atual cenário econômico, o ministro foi além e associou o conflito à oposição brasileira.
“Então não é o governo que gasta, é a guerra feita pelo governo dos Estados Unidos no Irã, apoiada pelo bolsonarismo que está trazendo aumento de preço no país”, afirmou Durigan.
A declaração coloca novamente no centro do debate econômico a disputa sobre quanto da inflação brasileira decorre de choques internacionais e quanto está ligado às decisões de política econômica tomadas dentro do próprio país.
Petróleo disparou após início do conflito
Há fundamento econômico para parte do argumento apresentado pelo ministro. A guerra provocou forte impacto sobre o mercado internacional de energia.
Segundo o Metrópoles, antes do início do conflito, em 28 de fevereiro, o barril do petróleo Brent era negociado próximo dos US$ 70. Durante a escalada militar, chegou a alcançar US$ 120 e, nesta sexta-feira, permanecia ao redor de US$ 94.
Uma alta dessa magnitude pode atingir a economia brasileira por diversos canais. Combustíveis mais caros elevam custos de transporte e produção, enquanto problemas de abastecimento internacional também podem atingir fertilizantes e outros insumos importantes para o agronegócio.
Durigan citou justamente o risco de aumento de preços e dificuldades de oferta de fertilizantes como exemplos dos impactos internacionais observados pelo governo.
Para tentar reduzir os efeitos da disparada do petróleo, o governo federal adotou medidas de subsídio envolvendo gasolina, petróleo, etanol e gás. Mesmo assim, o IPCA acumula alta de 4,44% em 12 meses, segundo dados citados pelo Metrópoles.
Banco Central também aponta preocupação com política fiscal
A declaração de Durigan, entretanto, não apresenta todo o quadro considerado atualmente pelo Banco Central.
No comunicado mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgado após a reunião dos dias 4 e 5 de agosto, o BC reconheceu expressamente a incerteza provocada pelos conflitos no Oriente Médio e a volatilidade dos preços das commodities.
Mas o mesmo documento também afirma que o Comitê continua acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os preços dos ativos financeiros.
O Banco Central aponta ainda que as expectativas de inflação continuam acima da meta. Na pesquisa Focus considerada pelo Copom, as projeções estavam em 5% para 2026 e 4,2% para 2027. A instituição também destacou preocupação com eventual desancoragem das expectativas para horizontes mais longos.
Ou seja, embora a guerra e a alta do petróleo sejam efetivamente parte relevante do problema, a própria autoridade monetária não trata o cenário fiscal brasileiro como um fator irrelevante.
Dívida pública chega a 81,9% do PIB
A discussão ganha ainda mais peso diante da trajetória recente das contas públicas.
Dados oficiais do Banco Central mostram que a Dívida Bruta do Governo Geral atingiu 81,9% do PIB em junho de 2026, equivalente a aproximadamente R$ 10,8 trilhões. Apenas naquele mês, houve avanço de 0,9 ponto percentual do PIB.
No acumulado do ano, a dívida bruta aumentou 3,3 pontos percentuais do PIB. O BC atribuiu esse crescimento principalmente à incorporação dos juros nominais e às emissões líquidas de dívida.
É justamente esse quadro que alimenta as críticas à política fiscal do governo Lula. A preocupação do mercado não se limita ao nível atual dos gastos, mas envolve a trajetória das despesas, a capacidade de produzir resultados primários positivos e o crescimento da dívida pública ao longo dos próximos anos.
O próprio Durigan reconheceu nesta semana que um eventual novo mandato do presidente Lula exigiria novo esforço fiscal. Segundo ele, o objetivo seria promover um ajuste de dimensão semelhante ao realizado durante a atual gestão.
Selic permanece em 14% ao ano
O Banco Central reduziu a taxa Selic para 14% ao ano no início de agosto, mas manteve uma comunicação cautelosa sobre os próximos passos.
Além dos conflitos no Oriente Médio, o Copom citou inflação ainda elevada, expectativas acima da meta e os efeitos da política fiscal doméstica como elementos que exigem prudência na condução dos juros.
Em reunião anterior, o BC também havia incluído entre os riscos de alta para a inflação uma combinação de políticas econômicas internas e externas capaz de pressionar o câmbio, além de possíveis estímulos excessivos à demanda e ao consumo.
Essas manifestações tornam mais difícil sustentar que o debate brasileiro sobre inflação esteja resumido apenas aos efeitos da guerra.
Guerra explica parte da inflação, mas discussão fiscal permanece
O choque provocado pelo petróleo é real e possui impacto direto sobre os preços. Nesse ponto, a avaliação de Durigan encontra respaldo no próprio diagnóstico do Banco Central.
A divergência aparece quando o ministro contrapõe esse fator à discussão sobre os gastos públicos.
Ao dizer que “não é o governo que gasta” e atribuir o aumento dos preços à guerra, Durigan apresenta uma interpretação política mais ampla do problema. Os documentos do Banco Central mostram um cenário mais complexo: fatores internacionais pressionam a inflação, mas a política fiscal brasileira também permanece entre os elementos acompanhados pela autoridade monetária.
A dívida bruta em 81,9% do PIB, as expectativas de inflação acima da meta e a Selic ainda em 14% mostram que o desafio econômico brasileiro não se encerra com uma eventual redução das tensões no Oriente Médio.
A guerra pode ter agravado o problema. A situação das contas públicas, porém, continua fazendo parte da equação.
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